sábado, 2 de abril de 2016

Cursos e consultas: Astrologia da Alma






Conheça o seu itinerário evolutivo pela perspectiva do Eu Superior, também conhecido como Self, ou ainda, Alma Interna.

A análise do Mapa Natal por meio do método proposto viabiliza ao consulente saber como acessar as linhas de menor resistência e mais resposta a esse nível/qualidade superior de inteligência e ação, que é o Self.

Não é um trabalho preditivo, mas antes, de entendimento sobre as inclinações superiores assim como as tendências potencialmente negativas (pontos cegos) que juntos geram a dinâmica da psique e que afeta de formas insuspeitas a vida objetiva. Uma vez que essas inclinações se tornem conhecidas, são fornecidas práticas meditativas adequadas para  gerar maior poder de resposta da psique ao Self, e desse modo, proporcionar ao praticante/meditador a possibilidade dele aprender a discernir os conteúdos que surgem da sua Vida Interna e de como dar forma e objetividade  aos mesmos.
Na análise da Astrologia da Alma é priorizada a identificação dos temperamentos/tônicas mais influentes sobre a constituição tipológica individual, considerando que a complexidade humana derivada das múltiplas combinações de humores e tendências. A ferramenta para obter o perfil tipológico individual é a medição dos RAIOS, em essência, tônicas ou notas que respondem pela diversidade e variedade de perspectivas, tipos psicológicos pessoais e habilidades específicas. Uma única pessoa pode ser a convergência de Raios completamente distintos combinados para formar uma inteligência complexa e de múltiplas habilidades; ou então, objetivamente definida em um Raio para a realização de uma meta clara e definida pelo Self, ainda que não necessariamente clara e definida para a consciencia imediata.

Pelo mapa podemos entender melhor onde estamos no mundo e como podemos empregar de modo mais eficiente e feliz nossas competências e capacidades criativas. Também é possível analisar a atualidade da mesma forma que a Astrologia convencional o faz, embora nunca de modo preditivo.

Para saber mais, acesse marciolarsen@hotmail.com

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terça-feira, 23 de fevereiro de 2016

Os Trabalhos de Hercules (Parte 2)

3º TRABALHO
A COLHEITA DAS MAÇAS DE OUTRO


Tendo compreendido o impedimento que a mente conturbada causa ao gerar para nós dor e confusão, e aprendido a lidar com as emoções e com os impulsos que nos atiram de um lado para o outro gerando muitas situações que terminam em lamentação, Hércules percebeu que precisava buscar mais conhecimento para lidar com tudo isso.
O seu Instrutor lhe disse: “É verdade. Segue em busca das maçãs de ouro. Lá está o que você procura: A sabedoria”. Ainda sim, Euristeu lhe alertara sobre os equívocos de percepção a que Hercules estaria sujeito caso não observasse com muita atenção certos aspectos ao longo do caminho. O Discernimento antevisto no trabalho anterior deveria agora, tornar-se interior, pois os perigos viriam escondidos sob véus muito tênues e tentações para lá de enganosas e sedutoras.
 Hércules atravessou o Terceiro Portal e saiu em busca do Jardim das Hespérides,uma espécie de jardim do éden onde se encontravam essas maçãs, cuja macieira era tida como uma árvore sagrada guardada por três belas damas e vigiada por um dragão de cem cabeças.  
     Em sua demanda Hércules procurou muito, de norte a sul, em todas as direções. Percorreu terras antes desconhecidas, conheceu pessoas e situações completamente inéditas para ele. Perguntava a todos qual rumo tomar para chegar ao seu objetivo, mas cada um lhe indicava um caminho diferente.
   Conforme encetava a sua busca, Hércules conheceu muitas pessoas sensitivas que lhe falaram de “poderes” e de “adivinhação” com os quais ele se maravilhou, e é claro, perdeu algum tempo esperando aprender como faziam.  O guerreiro-discípulo estava distraído, disperso e fascinado por pouco, afinal nem mesmo o seu Mestre realizava tais “proezas” supostamente super-humanas.
     Nesse tempo o Instrutor enviou ao encontro de Hércules o Centauro Nereu, na mitologia um ser com corpo de cavalo (animal), mas com tronco, cabeça e braços humanos. Nereu era muito sábio e por isso respeitado pelos Deuses. Ele poderia muito bem alertar Hércules sobre os perigos inerentes ao seu comportamento.
     Nereu tentou mostrar a Hércules que tudo o que ele procurava estava dentro de seu próprio coração. O “poder” dos outros que tanto o impressionara ele também os tinha e não devia jamais colocar outro ser humano acima de si mesmo, endeusando ou dando-lhe poderes de orientar e conduzir sua vida.
      Hércules ouviu Nereu, mas não lhe deu atenção, pois estava fascinado e faria qualquer coisa que lhe mandassem para se igualar as pessoas que imaginava superiores a ele. Mal sabia que esses “poderes” uma vez mal empregados constituem o caminho mais fácil para a perdição. 
      Nereu foi ao encontro de Euristeu e lhe disse que Hércules nem o ouvira. Mas, o instrutor experiente e sábio, contemplando do alto da sua estatura consciencial o todo da jornada ao invés do momento no qual o Discípulo estava enredado, confortou Nereu dizendo-lhe que a semente foi plantada e que seria de utilidade para Hércules, que ainda cometeria outros erros e fracassaria até que a lição fosse aprendida.
 No caminho, ao dirigir-se para o Sul, o ponto da escuridão, Hércules sonhara que havia obtido sucesso em sua busca, porém, a serpente-dragão Anteu se colocou entre ele e a árvore, vencendo o Herói sucessivas vezes. Hércules inconformado por não saber como vencer o monstro guardião da árvore, reuniu todas as suas forças para num ato final, erguer a besta no ar longe do chão, e somente dessa forma, derrotar o pesadelo. Porém, Anteu ameaçou o guerreiro dizendo: “Virei novamente com outro disfarce no oitavo portal. Prepara-te para a nova luta”.
     Mais confiante pela breve, porém subjetiva vitória, Hercules se encaminha para um novo deslize. Cansado de tentar se igualar com os “poderosos” que nenhum interesse tinha em ensinar-lhe o que faziam, Hércules percebeu que havia perdido muito tempo e saiu dali para logo adiante encontrar Busiris, um encantador filho de Poseidon que o seduziu dizendo-lhe ser “o escolhido”, um tipo de “Mestre dos mestres” que se autoproclamava o mais sábio e o dono da verdade.
     Sob a autoridade de Busiris Hércules se dedicou a tudo que lhe foi sugerido acreditando que iria receber as informações desejadas. Ficou tanto tempo a serviço do suposto mestre que enfraquecido na sua vontade e esquecido de si mesmo, foi amarrado a um altar e explorado por Busiris, que o manteve ali aprisionado.
      Exausto e sem forças, um dia lembrou-se do encontro com Nereu e de suas palavras “O que procuras está dentro de você”. E Hércules compreendeu que a força e o poder estavam nele. Pouco a pouco começou a reagir, reuniu forças e levantou-se, ficou de pé, cortou as amarras e quando Busiris voltou Hércules o amarrou ao próprio altar e partiu. A decepção e a subserviência ao falso mestre se uniram às palavras de Nereu, que agora, calavam fundo no seu coração.
     Hércules tomou consciência dos anos que havia perdido a serviço de Busiris e apressou-se em busca das maçãs. Mas ouvindo gritos de desespero e gemidos de dor, procurou saber de onde vinham até encontrar Prometeu*, outra figura da mitologia, amarrado a uma pedra e com abutres comendo-lhe o fígado. E lá se foi Hércules: Desamarrou Prometeu, espantou os abutres e permaneceu ali a seu lado curando-lhe os ferimentos até que sarassem. Mais adiante, em outro estágio, Hércules reencontra Prometeu no Hades expiando as dores da humanidade.
     Depois disso Hércules retomou a caminhada. Continuava encontrando pessoas que afirmavam conhecer o caminho para as maçãs da sabedoria, mas cada uma indicava-lhe uma direção diferente.






Hercules se encaminha para ajudar prometeu

    
      O Herói continuava na busca até que, finalmente, por si mesmo, enxergou lá adiante a árvore cheia de maçãs douradas. Estava quase estendendo as mãos para alcançá-las quando surgiu na sua frente o gigante Atlas carregando o mundo nas costas. Encurvado sob o peso da dor e das dificuldades da humanidade, o titã mal conseguia andar. E Hércules, sem pensar, estendeu as mãos para ajudá-lo.




Hércules ajuda Atlas a carregar o mu


        Ao tomar o globo em suas mãos este lhe pareceu leve e se desfez. E ao olhar para o gigante lá estava ele em companhia das três damas, segurando as maçãs e estendendo as mãos para entregá-las a Hércules, que agora não mais precisava delas uma vez que ele desenvolveu uma sabedoria prática sem paralelos. As Damas ensinaram a Hercules uma valiosa lição: “O Caminho que traz a nós é sempre marcado pelo serviço. Jamais te esqueças. Vai e serve, e a partir de hoje e para sempre, palmilha o caminho de todos os servidores do mundo”. Então, num ato de maturidade e reconhecimento da verdade ali experimentada, Hercules disse: “Eu devolvo estas maçãs para aqueles que virão”. E dali ele partiu para encontrar Euristeu e seguir para o Quarto Portal.           
          Ele, Hércules, havia compreendido que a força e o poder estão dentro de nós e o caminho da sabedoria está no serviço que nos aproxima dos outros e nos permite entendê-los para poder amá-los, cumprindo a palavra do Cristo “Amai-vos uns aos outros”. Este é o caminho da salvação.
         Não podemos amar a quem não conhecemos. É preciso nos aproximar de todos. Aqueles a quem amamos hoje um dia não amamos, porque não o conhecíamos.
     Quando percebemos que há algo a mais que não víamos, ficamos motivados para aprender tudo, saber tudo, compensar o tempo perdido em que nada sabíamos. E só conheceremos a vida através da vida em outros. Como disse Vimala Thakar “Viver é relacionar-se”.
         De nada adianta sair apressado buscando conhecimento se não olhamos para nós nem para os outros com respeito, pois é ali que está a vida e tudo que precisamos aprender. Mas logo surgem muitos “mestres” querendo nos ensinar, outros querendo se aproveitar da nossa inocência, e o pior: aqueles que se outorgam donos da verdade e messias. São os falsos gurus e profetas aludidos em várias tradições, e que às vezes até chegaram perto de obter a iluminação, mas que acabaram sucumbindo ao orgulho e a prepotência. Fascinados pelo poder, se atiram sobre as multidões ingênuas e sequiosas, pois sabem que as pessoas são preguiçosas e acomodadas, sendo mais conveniente acreditar no que vem “pronto” do que criar o próprio processo de compreender.
O Pensador Russo George I. Gurdjeff dizia que criamos lideres para que esses pensem e decidam por nós já que estamos por deveras letárgicos para sair da condição confortável de autômatos. Encetar uma jornada nos caminhos do ser pode e deve ser uma prioridade prazerosa, mesmo que árdua.
Mestre mesmo foi Nereu um ser já meio homem (4º reino) e meio animal (3º reino) que apontou para o coração de Hercules a verdadeira Árvore da Sabedoria. Porém, Hercules precisava “esgotar” sua sede por aquelas ilusórias formas de poder e evolução. Portanto, fosse Nereu ou fosse Euristeu Hércules não daria ouvidos. Caso ele reprimisse o desejo ali inflamado o mesmo voltaria adiante com muito mais força, o que de certa forma acontece quando Nereu retorna no Oitavo Portal com as suas nove cabeças tentadoras, porém o Hércules que chegará nesse estágio já amadureceu muito e pouca energia confere aos desejos.
Nesse caminho que estamos procurando entender seremos meio homem (4º reino) e meio consciência desperta (5º reino). Sim, existe outro Reino muito mais evoluído do que o nosso, e para ele todos nós caminhamos, por mais que a nossa percepção imediata da realidade desminta essa afirmação (absurda para a maioria de nós).
      Recordemos as palavras nada compreendidas de Cristo: “O QUE EU FAÇO VÓS PODEIS FAZER MELHOR... PORQUE O REINO DE DEUS ESTÁ DENTRO DE VÓS”. Assim Ele confirma que todos nós somos Luci-gênitos, ou seja, filhos da Luz Maior (VÓS SOIS A LUZ DO MUNDO) e que uma vez reconhecida e desperta essa Luz nos guiará para o Quinto Reino, o Reino Super-Consciente.
         Os Cinco reinos da natureza no Planeta Terra são:
-Mineral
-Vegetal
-Animal
-Hominal
-Consciêncial/Super-humano (para o qual Hércules se encaminha)





AJUDANDO O HOMEM A CRESCER

Nereu, o Centauro que simboliza a verticalização da consciência que eleva e transforma o animal à luz da autoconsciência disse para Hercules buscar a SABEDORIA dentro de si mesmo, mas o interiorizar-se não é fácil para quem só olha e intenciona para o exterior. É bem verdade que é mais cômodo olhar para fora, mesmo não sabendo que o que está fora e nos identificamos positiva ou negativamente não deixa de ser projeção do que está dentro.
Ao socorrer Prometeu Hércules aprendeu sobre as emoções nos outros, que em muitos casos levam à doença e a dor consumindo-lhes as vísceras, pois as emoções atuam sobre o nosso sistema digestivo (o símbolo dos abutres devorando as vísceras).
          Mas a luz chegou quando abriu mão do seu propósito maior de pegar as maçãs, porque conseguiu enxergar o outro como a si mesmo. Ao ver a situação do gigante Atlas, avaliou a dimensão do peso que carregava e ofereceu-se para ajudá-lo. Nesse gesto compassivo, Hercules sai do seu pequeno ego e vive o outro e se comove com as carências e necessidades alheias. Descobre que o verdadeiro poder é “poder” ajudar o outro lançando mão dos “poderes” internos da Alma. Levitar, mover objetos, ler pensamentos tudo isso é inútil perante a solidão do outro em sua dor e impotência. Já a compaixão, a empatia e o bem cuidar transformam experiências sofríveis em oportunidades de crescimento e regozijo para ambas as partes, ajudante e ajudado. Sentimos que o outro é uma parte nossa que precisa ser cuidada.
      Certa vez perguntaram a um grande Mestre como ele explicava a dor coletiva que assolava o povo africano, questionando a bondade Divina perante tamanho genocídio  que domina aquele continente. O Mestre respondeu: “Sofrimento maior é daqueles que poderiam fazer algo para mudar esse estado de coisas e nada fazem. Imaginem a quantidade de recursos desperdiçados em tolices que poderiam ser utilizados em prol dessas populações, mas que servem apenas para saciar uma humanidade exterior a si mesma, que nega a Deus na recusa em pelo menos ver o sofrimento desse mesmo Deus naqueles que padecem do maior mal de todos: A indiferença. Não é somente culpar os governantes, posto que esses nada mais são do que executores dos anseios da coletividade”.  
 Como ensinou as Hesperides é no serviço ao próximo, ao mundo, a Deus através da humanidade que aprendemos e, portanto crescemos em sabedoria.  Mas essa questão do serviço precisa ser apoiada na impessoalidade e na incondicionalidade. É servir livre de qualquer necessidade recompensa ou reconhecimento. É servir em esquecimento.
          O grande filósofo espiritualista Pietro Ubaldi dizia que A força está no todo e a fraqueza na parte”. A “parte” quando “se parte” do todo é insuficiente, não troca com o sistema, sobrevive extorquindo e pilhando o meio em que sobrevive. As “partes” existem como fragmentos desconexos NA ILUSÃO DA SEPARATIVIDADE, vivem somente para si mesmas (nada muito diferente do modelo de sociedade que criamos e vivemos). Vejamos todos os partidarismos existentes no mundo e o que isso gerou e continua a gerar: cada vez mais separação, desencontros, pobreza e animosidade entre etnias, religiões e ideologias.
       De acordo com alguns cabalistas o Jardim do Éden (que é o ambiente desse trabalho) é um estado de unidade, de não separação, e que partes desse estado paradisíaco estão espalhadas no mundo. A reintegração dessas partes é denominada Tikkun Olam (reparação do todo). E a reparação do todo ocorro quando as parte conscientes (nós) reparam a si mesmas.
         O Filósofo Novalis, em concordância com os Cabalistas assim definiu o paraíso: “O paraíso está fragmentado pelo mundo. Cabe a nós, investidos da própria consciência de unidaderecompô-lo.” E só podemos recompô-lo servindo, não existe outro caminho. Somente o Amor pode reunir as partes cindidas, pois ele é o poder de coesão do universo.
      Uma das grandes dificuldades dessa questão é que não sabemos bem discernir o que é serviço de verdade e o que é ficar atendendo aos caprichos e desejos dos que nos procuram bem distantes do que seria um benefício evolutivo para todos. Precisamos de muito cuidado e atenção com a questão. Maior ainda é o Discernimento necessário quanto às nossas motivações na busca, pois se forem exclusivamente egoístas e movidas pela vaidade a decepção será inevitável. Criamos muitas miragens a partir de fascínios por objetivos, objetos e metas ilusórias.
     O terceiro trabalho é, sob muitos aspectos, um dos mais complexos, importantes e valiosos, pois além de todas as nuances aqui exploradas e aquelas relacionadas com outras formas de entendimento, fica patente também uma questão que merece uma reflexão final: a distração.
        Desperdiçamos muita energia com interesses e afazeres inconsistentes e superficiais, na verdade, o tempo todo somos induzidos e movidos para que fiquemos entretidos, fixos em objetos e objetivos que em nada nos enriquece e nutre. Hercules perdeu um tempo valioso ocupado com coisas pueris, porém muito palatáveis a sua mente superficial e para o seu periférico, cuja limitação e inércia se compraz com o que não carece de esforço e profundidade. De sujeito ele passou a objeto nas mãos de Busiris. E isso vem acontecendo com a humanidade: está se colocando no papel de objeto, está coisificada por sujeitos artificiais.
    Procuremos usar melhor nossas mentes, não que seja negativo ter momentos de lazer e de atividades lúdicas, pelo contrário, são essenciais, contudo não podem ser confundidas com distrações que alienem nossa percepção e a restrinja somente para o que a super-estimula atenção para fora, que vicia os sentidos e altera o quimismo cerebral. As ditas distrações nem mesmo relaxamento propiciam, ao contrário, tendem a nos deixar mais ansiosos, ausentes e nervosos.
Precisamos também zelar pela nossa morada planetária re-investindo em prazeres essenciais, simples, pois estamos extorquindo os recursos naturais produzindo objetos de entretenimento descartável que  não raro, são produzidos às custas da falta alheia. É hora de rompermos essa cadeia viciante de alienação e falsos interesses que nos deixam a cada dia mais ausentes e indiferentes perante as dores do mundo.
Hércules se distraiu com faquires, mágicos e pseudo iniciados, nós enquanto Homo demens nos encantamos com ídolos tolos produzidos por uma mídia que hipnotiza as massas com truques idiotas, ficamos vidrados e contritos mediante as telas que nos monitoram nos bombardeiam com milhares de estímulos e hábitos que vergonhosamente nos rebaixam mediante aqueles que verdadeiramente fizeram jus a condição de Homo Sapiens, essa espécie ainda rara.



4º TRABALHO
A CAPTURA DA CORÇA (OU GAMO)

Hércules conseguiu libertar sua mente da produção constante de pensamentos autodestrutivos e acalmar as águas revoltas de suas emoções. Depois aprendeu com muita luta, dificuldades e dor que a sabedoria está dentro de nós. Assim Hércules encontrou a PAZ.
E percebia que essa PAZ não era apenas autogerada, mas sim uma freqüência de vibração antes desconhecida, pois só se pode encontra-la depois de aquietar as emoções, calar a mente e aprender a entrar no coração. 
Mas isso só ocorria de vez em quando. E logo lá estava ele, de novo enredado e vivenciando a frequência da personalidade submersa no dia-a-dia daqueles que ainda não experimentaram o contato, mesmo que rápido e efêmero, com a própria alma que nos leva e nos eleva para o Coração de Deus através do nosso coração.
Hércules percebeu, então, a necessidade de conduzir a personalidade esquiva e escorregadia e depositá-la aos pés do Altar do coração. Se a deixasse solta, logo seria arrastada pela consciência da “massa” com todos os vícios e comportamentos disfuncionais que lhes são inerentes. 
E essa foi a tarefa que seu instrutor lhe deu: O Guerreiro-Discípulo precisava capturar a veloz Corsa/ Gamo com a galhada de ouro, reclamada por duas Deusas: Diana e Artemis, a Deusa caçadora e a Deusa lunar, respectivamente. Hércules deveria capturar a corsa e conduzi-la ao Santuário de Micenas. 
Diana e Artemis travavam uma discussão sobre quem era a dona da corsa, mas enquanto elas discutiam Hércules ouviu uma voz dizendo-lhe “a corsa não pertence a nenhuma das duas, você deve captura-la e conduzi-la com segurança ao Santuário no alto da montanha”. E obediente à orientação interna, Hércules seguiu no encalço do cobiçado cervo.
         Hércules não imaginava que essa tarefa seria tão cansativa, posto que a cada vez que ele capturava a corsa e a colocava aos pés do Altar, logo ela fugia e corria pelos prados. E quase sempre ele era ludibriado pelas astutas Deusas Diana e Artemis, que viviam criando ilusões sempre que Hércules estava próximo de lograr êxito.
         Mesmo trabalhando com paciência e persistência, havia muita interferência de Diana (a mente) e Artemis (a emoção), ambas, movidas pelo desejo de se apoderar da corça. Hércules tinha que lidar com essas forças até ser capaz de conduzir o animal ao altar do coração localizado dentro do Templo.
Um dia, quando tentava mais uma vez capturar a corsa ele a machucou numa das patas e a levou, solícito e cuidadoso ao altar do templo. Mas dessa vez, ele a carregou nos braços e a aqueceu com o calor do seu coração. E lá ela ficou até que Hércules a deitasse no altar.


Hercules feriu o gamo, mas o conduziu ao templo com Amor
        
       

      Hércules aprendeu então, que só chegamos a Deus, e a Ele podemos conduzir alguém, pela via do coração. Não há outro caminho. Porém, eis que agora Hércules se apegou à corsa e a reivindicou como sua, igual às Deusas que tanto lhe atrapalharam o cumprimento da tarefa. Na verdade, muitos deuses estavam disputando a posse do animal, porém, uma vez que ele havia sido deitado no altar e levado ao coração de Deus, o Instrutor convenceu Hércules de que todos são Filhos de Deus e que podem compartilhar do mesmo templo.
         O instrutor ficou feliz. Hércules entendera a lição e a tarefa foi realizada. Mas ao rumar para o próximo portal, ele deparou-se com uma corsa no alto da colina, igual a sua, e estando ao lado do Instrutor perguntou a esse se ele havia falhado. E soube que uma vez tendo se colocado aos pés do altar precisava, agora que sabia como, procurar encaminhar outras corsas com o mesmo cuidado e com o mesmo Amor com que lidara com a sua própria corça (A personalidade sempre rebelde, escorregadia, inconstante).


AJUDANDO O HOMEM A CRESCER

Hércules aprendeu a lidar com a dualidade sempre presente no nosso mundo de experiência na Terra e a grande dificuldade de sustentarmos nossos propósitos mais elevados uma vez que a força que nos puxa para baixo é grande.
Hércules também extraiu outra valiosa lição da sua ultima tarefa: Que não devemos nos apegar ao resultado das nossas ações, pouco importando a natureza das mesmas. Uma vez que tenhamos cumprido nosso dever, devemos nos tornar, segundo as palavras de Jesus “servos inúteis”, ou seja, vazios para uma nova ação. No Bhagavad Gita está escrito que “Quem faz o que deve fazer e não depende dos frutos da sua ação, esse é um sábio e um santo”. De maneira similar diz o Taoísmo: “O sábio faz, mas nada retém, e por não se apegar aos frutos da ação não sofre”. O que é feito no Amor nada guarda e nem aguarda. 
E só com amorosa persistência, cuidado e atenção diários é que podemos ir trocando de vibração, mudando nossos interesses, reeducando nossas atitudes, encontrando uma forma nova de ação. Para cada dia uma corsa deve ser capturada e encaminhada ao templo do coração até que a libertação final seja alcançada.
Vale mencionar que o templo está no “alto da montanha”, uma alusão aos Planos mais elevados de consciência. A cada vez que a corsa é elevada, mais refinada e sutil ela fica até que faça parte do Santuário e não vague mais pelo mundo.
Esse trabalho é constante, sempre será feito até que o “filho do homem” se transforme integralmente em “Filho de Deus”.



  
5º TRABALHO
CAPTURA DO LEÃO DE NEMÉIA

         O LEÃO É O REI DOS ANIMAIS. Seu porte é suntuoso, sua aparência vaidosa, como se reconhecesse seu poder e sua realeza. Ele sabe da sua superioridade sobre os outros animais.
E Hércules passou pelo quinto portal para superar mais um desafio: Capturar o temível Leão que aterrorizava a localidade de Neméia.
Vamos imaginar o quanto Hércules progrediu nos quatro trabalhos anteriores, tudo o ele que conseguiu aprender através de suas experiências. Até pouco tempo atrás nada sabia.
Difícil para nós não nos envaidecermos do próprio progresso, não fazer pose, não agir de forma prepotente, poderosa. Mas a vida, sem tardar, nos convence de que não vale a pena vivermos tão iludidos assim. O nosso ego é frágil e vulnerável.
Hércules precisava matar o leão dentro dele, e descer do pedestal em que estava se colocando somente por se reconhecer mais sábio do que era antes. Mais forte certamente ele era, porém, longe ainda de ser um Sábio. E a força sem a Sabedoria pode causar estragos ilimitados, gerar sofrimento e medo.




          O instrutor então lhe deu a tarefa de chegar a uma cidade onde o leão dominava tudo. Mantinha todos aprisionados no próprio medo e ninguém ousava sair de suas casas. A comunidade sentia fome e a cidade estava abandonada à mercê do poderoso leão. Hércules lá chegou e avisou ao povo que ali estava para libertá-los do leão.
E saiu procurando. Quando o encontrou, Hércules ameaçou o leão, que correu para dentro de uma caverna. E Hércules lá entrou para encontrá-lo, mas não o encontrou. O leão saiu por outro lado. Hércules no trabalho anterior capturou um animal inofensivo e delicado, mas agora, estava frente a frente com a mais forte e temida das feras, que sozinho tinha mais força do que vinte homens juntos. O que fazer como fazer?
Foi preciso bloquear a outra saída e se colocar frente a frente com o leão, mas Hércules estava desarmado, ainda que confiante na sua força e destreza. Na escuridão da caverna numa luta corpo a corpo sem nenhuma testemunha presente, usando somente as suas mãos, ele agarrou o leão por trás apertando-lhe o pescoço até a fera sucumbir e morrer.
Retirou a pele do leão e mostrou ao povo que havia vencido. Estavam livres da prepotência imposta pela violência e pelo terror, pela vaidade e pelo grande mal da separatividade.
O Guerreiro-Discípulo levou a pele do leão para o instrutor, que permitiu a Hércules vestir-se com ela, pois agora não havia mais perigo, pois o leão nele jamais atuaria como uma força autônoma e separada. O ego personal não dominaria o ser desperto que começava a surgir. De Guerreiro-Discípulo, Hércules estava caminhando para se tornar o Discípulo-Guerreiro.
          Hércules ao vestir a pele do felino encarnou o Leão da tribo de Judah que venceu o leão da personalidade e imolou sua força e poder para a realização do Plano Maior. No Taro existe um Arcano chamado “Força”, no qual uma suave figura feminina doma um Leão muitas vezes mais forte do que ela. O interessante é que ela não usa a “força” bruta para controlar a fera, mas antes, lhe insufla a sua sabedoria, conhece e sabe que precisa daquele poder e vitalidade para agir no mundo.  
         Quando o bravo Discípulo veste a pele do Leão, ele integra os instintos e os atributos do leão à força da sua consciência interna, pois é necessário ter um ego domado e servil para cumprir, enquanto instrumento o propósito da Alma. Hercules e o Arcano A Força se assemelham.




AJUDANDO O HOMEM A CRESCER

Vamos observar cada um de nós humanos como nos alegramos quando percebemos saber um pouquinho mais que os outros. Vejamos como nos portamos quando estamos frente a alguém que conhece menos do que nós, e como reagimos perante alguém mais informado.
Quantas pessoas se engrandecem por um diploma, uma categoria militar ou profissional? Muitas vezes obtiveram o posto ou a qualificação a custo de muito sacrifício, outras vezes, em troca de favores. Hércules já tinha encontrado um caminho para a sabedoria e acreditava que já tinha se colocado a serviço do Amor. Mas ainda era cedo, e ele ainda capitularia em situações nas quais as habilidades até então adquiridas não seriam suficientes.
          Todos nós ficamos felizes com o nosso progresso, mas não deixamos de nos sentir maiores, melhores do que os outros quando percebemos saber mais. Esquecemos que é questão de momento.
         Agora podemos saber mais, mas se não cuidarmos de sustentar a busca e de nos avaliar sempre, ficamos estagnados e nos perdemos na postura vaidosa, viramos donos da verdade e queremos trazer todos os outros sob nosso domínio adotando nosso ponto de vista. Existe um pensamento que ilustra bem esse tipo de miragem: “numa planície até um anão parece gigante”.
          Ficamos ansiosos e queremos tirar-lhes a liberdade de ser como são e nem mesmo reconhecemos que há um tempo para cada um, e que o que me parece tão bom pode não fazer sentido para os outros, nem mesmo poderá fazer sentido para mim quando outra perspectiva e tomada de consciência ocorrer.


Hercules veste a pele do leão integrando a força e o poder daquele animal ao seu Eu Superior


INTERLUDIO
Para acompanhar Hércules nos próximos trabalhos 6-7-8-9 é preciso que já tenhamos nos livrado do Leão em nós para que possamos perceber com clareza a dimensão dos problemas que vão ser apresentados e compreender que enquanto somos parte da humanidade, tudo que toca a qualquer um, nos toca também. E vamos vivenciar as dificuldades com Hércules e com todos os outros nossos irmãos na Terra sem críticas, julgamentos e preconceitos.
 Convidamos vocês que participaram conosco desta viagem de Hércules pelas tarefas iniciais, a pensar sobre essas dificuldades presentes na humanidade de hoje e, portanto, em todos nós para repensar cuidando de superá-las. E, pelo exemplo apenas, pela nossa nova maneira de ser, mostrando aos outros que é possível a transformação, vamos tocar-lhes o coração



6º TRABALHO
O CINTURÃO DE HIPÓLITA

Até chegar aqui, Hércules precisou olhar para si mesmo e ver nele o que precisava mudar. E entendeu tanto!
Nessa nova tarefa Hércules vai aprender o quanto, por não saber e como fazer, podemos ferir, machucar, magoar e até mesmo matar quem não queríamos ou a quem muito amamos. Matar nem sempre é tirar a vida, pode ser invalidar a criatividade do outro, extirpar a sua autoconfiança, ou mesmo, levantar falso testemunho perante os demais.
Seu instrutor lhe deu a seguinte tarefa: Visitar as Amazonas e obter o cinturão de Vênus usado por Hipólita, a rainha das virgens guerreiras lendárias.
         Simbolicamente o cinturão guardava a virgindade, a pureza de algo que Hipólita desejava ainda conservar. Não queria entregá-la a ninguém.
         Hércules não soube ou não pode aguardar o tempo, o sagrado momento da entrega e tentou desatá-lo à força, combatendo com Hipólita até que, com a ponta da sua espada, feriu-lhe a perna e ao olhar para ela, verificou então que o gesto tinha sido precipitado e desnecessário: Ela estava com o cinturão em mãos, prestes a entrega-lo. A lamentável consequência de tal gesto impensado foi a morte de Hipólita devido ao ferimento causado não intencionalmente, mas que se deteriorou.
Vamos transferir essa situação para os dias de hoje: Quantas vezes todos nós nos precipitamos para conseguir do outro alguma coisa à força, sem permitir que amadureça o suficiente para participar de uma questão? Como apressamos o outro sem perceber o quanto podemos estar magoando porque ele não está pronto?
          Existe uma Lei universal chamada Lei de Ritmo, uma das mais importantes no caminho probatório que nos conduz a realeza interior. Sem o conhecimento e exercício dessa Lei, nada poderá ser feito adequadamente, pois cada pessoa, situação ou evento tem o seu ritmo próprio, o seu tempo. Mas para lidarmos sabiamente com o ritmo alheio, precisamos conhecer nosso próprio ritmo e com ele sermos coerentes. Não se trata de imposição, mas antes de justaposição, o que requer sabedoria, flexibilidade e respeito.
Na pressa, na ansiedade de se obter o que for (no caso de Hércules era progresso na caminhada), ficamos perdidos a ponto de destruir o que mais desejávamos poupar. Estipulamos também formas de agir, métodos e hábitos que para nós são funcionais e adequados, mas não o serão necessariamente para o outro. Não raro, tendemos a criticar quem não age como nós, sobretudo quando somos virtuosos em habilidades específicas.
Cobramos do outro o que julgamos ser “certo”, “bonito” e “adequado” segundo nossa métrica, porém, nos decepcionamos e logo passamos a hostiliza-lo por ele não corresponder as nossas expectativas. É como se lá no fundo desejássemos que todos lessem a nossa cartilha e assim agissem. É a necessidade de uniformizar, de vestir o mesmo “uniforme” em todos.
A morte de Hipólita é a segunda na trajetória de Hércules. Lembram que na pressa e ansiedade pelos resultados, Hércules na sua primeira tarefa delegou a Abderis um trabalho que ele sozinho não tinha condição de cumprir? Nos dois casos não havia intenção de matar. Mas a precipitação mostrou a inconsciência, o desconhecimento de dimensão das limitações do outro. E nós? O que estamos cobrando, exigindo? Esperando além do que podem nos dar?
 Por sua vez, se observarmos o gesto de Hipólita, verificamos que ali está um recado também para nós. A pureza, não necessariamente ligada ao fato de ser virgem, era o que mais prezava, mas precipitou-se em entregar o cinturão porque acreditou que assim tinha que ser. Não houve alegria, afeto no seu gesto (Quantas coisas fazemos a revelia de nós mesmos, acreditando que assim deve ser?). Hipólita simplesmente julgou ser Hércules a pessoa para quem ela entregaria o cinturão. Mas existem outros elementos nesse episódio conforme vermos mais adiante.
O trabalho de Hércules nos leva a pensar que em todas as tradições religiosas é de uma virgem que nasce o Salvador. As respectivas mães de Jesus, Krishna e Buda são descritas como virgens. E o Salvador sempre nasce em condições de simplicidade, numa gruta que representa o Centro de consciência do Coração, esse templo frugal e humilde onde não cabe nenhum excesso (talvez isso explique a raridade de casos de câncer no coração).
 O Amor do Coração(que não é sentimentalismo) permite acolher quem quer que seja nada importando seus atributos, méritos, deméritos, virtudes, deficiências, etc. Jesus disse: "Amai-vos uns aos outros". Ele não pede para compreender uns aos outros, mas para Amar, pois só é possível compreender na impessoalidade do Amor. Antes disso ou fora disso, impossível compreender(chega a ser presunçoso). Por ser o centro da Individualidade Real, o Coração não faz distinção, ainda que perceba e saiba se nivelar ao ritmo particular de cada um. Interessante que esse centro é o quarto(como o reino humano) e converge os três centros superiores e os três inferiores(abaixo do diafragma), sendo por isso chamado de “O Palácio da Irmandade”, como também “O Cálice da Grande Mãe”.  Em certa Irmandade medieval os cavalheiros assim juravam: “Que a espada permaneça à frente do cálice para que o templo não seja profanado”. Profanar o cálice significa julgar, maldizer, negar a humanidade. A espada é a condutora para a Vontade Divina resguardar o "Templo" contra a ação dos três centros inferiores relacionados com a personalidade e com o mundo externo.
 É no Coração que o Salvador precisa nascer em todos nós. E o coração esteve ausente tanto na atitude de Hércules como na de Hipólita. O coração é para onde apontamos o dedo quando nos referimos ao “eu”, é onde reside a nossa humanidade, a verdadeira “uma-unidade”.
 O salvador ensina a ação amorosa, e nesse episódio, nenhum dos dois agiu por amor. Mas talvez Hercules tenha agido com o Centro do Coração ao resgatar a mulher que fora engolida pelo monstro marinho.





AJUDANDO O HOMEM A CRESCER

A proposta nesse trabalho é fazer com que sejamos pacientes, amorosos, compreensivos e capazes de dar suporte e apoio ao outro para que ele amadureça por si só e no seu tempo único e pessoal. Não adianta tirar o filho do ventre antes do tempo, porque não sobreviverá. Não está pronto. O mesmo vale para as ideias, para as relações, para tudo.
Melhor amadurecermos com a fruta do que arranca-la do pé antes do tempo. Enquanto ela amadurece, assim o fazemos aproveitando o tempo para refletir, criar, meditar. Normalmente ficamos inquietos quando temos que esperar, sobretudo nos dias de hoje onde tudo tem que ser imediato, abreviado, curto e diluído. É comum  abortarmos processos quando esses estavam na iminência de serem concluídos! Comumente nos indispomos e até rompemos relações por não sabermos respeitar o ciclo do outro, e o pior, quando ele já estava completando o seu processo. E uma vez mais o problema não é o outro, mas nós mesmos. Sabemos que muitas grandes invenções e descobertas só ocorreram após inúmeras tentativas, erros e insucessos. O fato é que somos reféns de um tempo psicológico do qual precisamos nos libertar, um tempo criado pela nossa eterna carencia de sentido.
        A Tradição ocidental usa uma palavra interessante ao se referir a maior virtude do Coração: Suportar. Em Coríntios 13 Paulo de Tarso usa essa palavra como um atributo do amor “que a tudo suporta”. Na verdade é uma palavra ambígua e sugere paciência no sentido de dar suporte as dores, faltas e necessidades alheias. Em inglês to stand não quer só dizer ficar de pé, também significa “aguentar” servir de apoio, daí a palavra stand nas exposições em português (estante). Da mesma forma a palavra bear (trazer no ventre) também tem a tradução de suportar até que esteja pronto para ser revelado, ou melhor, vir à luz todo um processo de crescimento e autonomia de outro.
O grande trabalho é de aprendermos a lidar com o tempo de espera pelo outro, pelo seu progresso e suportá-lo do jeito que está sendo, dentro de sua luta pessoal para se livrar dos impedimentos que o prejudicam. E respeitá-lo, esperando sua hora de entrega de si mesmo. E que essa entrega possa ser plena de luz e amor.
Hércules ao verificar que Hipólita havia morrido como conseqüência de um gesto inadvertidamente violento, saiu desesperado em busca de seu instrutor. Mas no caminho vê um enorme monstro aquático engolindo uma mulher, e sem hesitar o Herói mergulhou para salvar a mulher que acabava de ser tragada. Ele não teve dúvidas em segui-la até as entranhas do monstro, e com sua espada conseguiu libertá-la e traze-la de volta ao instrutor que lhe diz: “Enquanto aprendiz essa é a caminhada. Erramos inadvertidamente, matamos, salvamos quando menos esperamos e vamos aprendendo através do respeito por si mesmo e pelo outro vamos crescendo . 
        Num ato final de redenção Hércules mergulha dentro de uma terrível fera marinha para salvar uma mulher que havia sido engolida. Ele não conhecia essa pessoa, mas  precipitou-se para o interior da besta para resgata-la. O que isso significa? Talvez Hércules tenha mergulhado dentro do subconsciente para resgatar a sua anima, o seu lado mais sensível e acolhedor, parcialmente morto em Hipólita.
        É possível que Hipólita, personificando parte da anima de Hércules tenha se oferecido sem muito afeto por nunca ter tido atenção até o momento, salvo quando emerge para ajudar Prometeu e Atlas, e em seguida na captura da Corsa, que é levada no colo junto ao coração, um gesto suave e feminino. Ainda sim, ele nunca havia encontrado essa anima, não havia estabelecido um contato direto com ela. Hipólita era uma Amazona, uma guerreira, exatamente como o animus, ou seja, rigorosa e pouco cordata. Mas ali ela estava pronta para se doar, ainda que tardiamente.
       Este é um dos trabalhos mais importantes para o autoconhecimento e para transformação de cada um de nós. Vamos meditar sobre o quanto podemos estar, assim como Hércules, agindo de forma desrespeitosa com aqueles a quem mais amamos, impondo nossa força, caprichos, ideias e desejos. E por amá-los tanto assim criamos, na imaginação, papeis que não poderão representar. Tudo isso porque esse "tipo" de amor ainda está na esfera do amor Patos e do amor Eros. Vamos, portanto, meditar no que será dar suporte e suportar; e até onde e como tudo isso pode acontecer sem ferir(como Hercules) , mas também sem deixar de nos respeitar (como Hipólita). 
Esse trabalho é o meio da caminhada. A cada oportunidade Hércules se depara com questões que o levarão a aprofundar o conhecimento de si mesmo para poder melhor perceber o outro.



7º TRABALHO
A CAPTURA DO JAVALI

Hércules partiu para o próximo trabalho completamente desarmado. Estava preocupado e magoado consigo mesmo, envergonhado pela morte de Hipólita. No fundo ele estava tomado por um remorso muito profundo, fosse pelas duas mortes, fosse pela "vergonha" frente ao Conselho de Sábios, que muito provavelmente não aceitariam esse tipo de falha nessa altura da jornada e da suposta experiencia adquirida. 
Hércules, portanto, firmou dentro de si o propósito de cuidar para nunca mais ferir ou matar. E assim, atravessou o Sétimo Portal, porém, advertido pelo Instrutor para que reservasse um tempo para se alimentar.
A nova tarefa consistia em capturar um feroz javali que estava solto consumindo tudo ao seu redor, e Hércules iria dominá-lo deixando-o sob sua orientação. O javali é a personalidade voltada para os prazeres da matéria, que solto e sem controle, devora insaciavelmente tudo, sempre querendo mais e mais, sem limites.
Apolo deu ao Herói um novo arco, mas apreensivo e precavido pelas duas mortes ocorridas por descuido e imaturidade, ele declinou do presente e partiu munido apenas da sua clava. Disse: “Eu matei, não farei mais isso. Deixo aqui o arco”. E assim partiu.
No caminho encontrou um grande amigo centauro com quem se pôs a conversar. Como já sabemos o centauro é metade humano e metade animal, alguns com maior predomínio do lado animal, outros, do lado humano. Sabemos que assim como há animais (representantes do reino animal) que pela sua convivência com humanos são animais domésticos que só faltam falar, há outros animais completamente selvagens, ariscos e violentos. Os seres humanos do Quarto Reino também: Há os que já estão na fronteira com o Quinto Reino, e vivem como consciências despertas, enquanto outros bem próximos do Terceiro Reino vivem próximos da realidade animal, da personalidade, independentemente da classe social e da escolaridade. Vivem somente para comer, beber e procriar inconscientes da riqueza ainda não desperta que trazem dentro de si. Em suma, permitem que o “Javali” se manifeste através deles o tempo todo. 
Lembrem: O “javali” representa os “prazeres” mundanos ou materiais. E a humanidade vive para alimentar o seu javali, mesmo que esse assuma vestes mais refinadas, como por exemplo a gastronomia, hoje uma moda cara e que confere certo status, mas que no excesso de importância a ela conferida não esconde o javali devorador escondido na base.
Hércules encontrou uma boa conversa com o Centauro Pholos, desviou-se do caminho e esqueceu a tarefa, distraído com o amigo. Logo outro Centauro se reuniu a eles e ali ficaram de conversa fiada até que um deles se lembrou que a comunidade de centauros tinha um grande tonel de vinho, reservado para que fosse aberto mediante algum evento especial e devidamente compartilhado com toda aquela comunidade. Bem distribuída pelos membros da comuna, a bebida não faria mal a ninguém.
Encalorados e sedentos, mais eufóricos do que o habitual, acharam que não haveria mal em abrir o tonel para tomar um pouco da bebida. Todavia o trio não tive limite:  beberam todo conteúdo! Hércules perdeu o equilíbrio inicial no qual assumiu o compromisso de ser mais ponderado e atento,mas agora seus atos eram contraditórios a promessa feita dele para ele mesmo.  Ele estava embriagado, tomado por uma euforia que logo cobraria seu preço. E para quem tem consciência o preço é sempre maior...
 Hércules e os Centauros ficaram bêbados e fizeram muita algazarra, o que despertou a curiosidade dos outros centauros que estavam trabalhando. Quando viram o ocorrido ficaram muito zangados, afinal, a bebida era para ser compartilhada com todos. Surgiu então uma briga sem fim onde Hércules, inadvertidamente matou os dois centauros amigos ao confundi-los com os "opositores". Parecia um pesadelo: seguidamente Hercules "mata" por falta de Presença, por inexperiência e também por negligencia. 
E assim é: Muitas vezes, quando em grupo, perdemos o controle da situação e nos desmandamos. Em “bando” o instinto de “alma grupo” dos animais se apodera da personalidade, criando rebanhos ou matilhas humanas (vide os clãs e as torcidas).   
 Hercules tinha firmado o propósito de cuidar para não matar, recusou inclusive o arco que Apolo fizera para ele, contudo, logo se viu envolvido em outra tragédia. Não teria ele sido traído pelo pensamento enganador? Quantas vezes nós nos traímos fazendo juras de que não faremos isso ou aquilo, quando de repente já fizemos? Será que funciona o temor como motivador para a negação? Não seria melhor manter atenção, observar as circunstancias, trabalhar para que a mente se torne mais alerta e desperta? Que tal meditar, contemplar, buscar esclarecimento para aguçar nossa percepção e deixar nossa mente mais robusta? A consciência precisa ser alimentada com nutrientes de qualidade, com informação de verdade recolhida tanto do exterior como do interior (in-formare: o que forma por dentro). Como estamos alimentando nossa mente e mesmo nossas emoções? 
Sem algum tipo de prática de natureza mais “interna” não existe “ambiente” psíquico e nem energia disponível para que haja atenção e reflexão. Mal respiramos direito, parca é a vitalidade que chega ao nosso cérebro e aos nervos. Vivemos uma vida de atribulações e rotinas tão desgastantes que pouca energia nos resta para consagrar ao nosso desenvolvimento e vida criativa. Parece que investir energia para dentro é o mais hercúleo dos esforços, tanto que logo dispersamos e voltamos ao modo comum, ou seja, raso e superficial.
Krishnamurti dizia que “estar atento requer muita energia”. Facilmente nos distraímos porque nos falta vigor para dentro. Tudo é para fora. Alias é bom saber que a palavra energia vem do Grego en-ergon, que significa movimento interior. Talvez estejamos carecendo de energia psíquica pura recolhida do interior, uma energia fresca que nutra nosso cérebro com informação “de cima”. Temos muita vitalidade para fora, inclusive é comum encontrar pessoas incrivelmente energéticas fisicamente falando, mas quase mortas nos domínios mais sutis. Talvez a falta de compensação ou ganhos imediatos e tangíveis desestimule o "empreendedorismo interno".
 A meditação é uma forma de captar energia de melhor qualidade a dizer não adulterada pela nossa consciência periférica. É preciso, como qualquer prática física haver disciplina para com as práticas da Alma. Não é custoso dedicar alguns minutos para a quietude, para um momento de simples silencio e contemplação, permitir que possamos estabelecer relação com forças de outras procedências. Precisamos parar e meditar um pouquinho sobre nós mesmos e quantas vezes já nos atrapalhamos e nos envolvemos em questões nas quais definitivamente não queríamos entrar e não conseguimos sair.
E por que o grupo nos leva a agir assim? Por que Hércules cometeu tamanha incongruência, tamanha contradição? Não teria ele perdido a sua individualidade, feito concessão ao Javali grupal? Não teria ele perdido a sua emancipação e autonomia de pensamento naquele momento? Não teria ele ficado des-energizado internamente, de modo que não lhe restou força para intervir na situação enquanto havia tempo?
O aprendizado de Hércules é árduo. Ele vê a fragilidade da personalidade cada vez que se desconecta da orientação da alma, e assim desconectado junto com outros perde o rumo, às vezes, por um momento e fica sem possibilidade de retorno imediato. É como uma correnteza que nos arrasta. Precisamos aprender a deixar de oscilar de um lado para o outro, de nos desviarmos do caminho, sustentando a polaridade na LUZ. 
E assim, mais uma vez magoado consigo mesmo, desapontado, Hércules sai em busca do Javali e consegue finalmente, após uma longa busca, capturá-lo e domestica-lo. Curiosamente, ele traz o Javali pelo rabo, uma clara alusão ao controle do chacra básico e seus apetites. Agora ele se considera justo para com aqueles a quem se dispôs ajudar na sua sétima tarefa, que esteve por um fio por causa da hora errada de celebrar e comemorar. Primeiro o “dever”, depois o “prazer”.
        “Prazer” antes do “dever” nos deixa “à dever”, gera desprazer e faz sofrer.



Hercules domestica o javali e cumpre o sétimo ordálio


 O povo da aldeia fica feliz porque uma vez capturado o Javali, a ordem e o equilíbrio voltam a reinar, com as colheitas bem distribuídas e todos satisfeitos. E Hércules fica feliz por ter capturado o Javali sem ferir ou machucar mais ninguém, embora esteja profundamente sentido pela gravidade da sua desatenção e imaturidade.
O fato curioso é que o Javali veio preso rabo após capturado, o que significa controle sobre as funções básicas relacionadas a vida material, aos prazeres e imperativos da carne. Ter imobilizado o Javali pelo rabo é uma forma de representar o fechamento do centro básico, justamente o responsável pela vida material e suas contingencias. Hercules travou esse centro e empurrou a energia para cima.
     Apesar dos percalços do caminho a vitória sobre o Javali é um marco importante para a trajetória ascendente de Hercules e de todos nós.
     Precisamos cuidar para não cair nos atalhos de nossa estrada seduzidos pelos interesses tolos da personalidade que sempre estarão a nos espreitar. Não podemos esquecer que no terceiro trabalho, nosso herói, por distração perdeu muito tempo com tolices e miragens que ele mesmo criou por causa dos fascínios que sorrateiramente cruzaram o seu (nosso) caminho.
    Hercules precisa reaver o equilíbrio interno, manter-se concentrado e determinado a cumprir o seu juramento perante a própria consciência e perante Aqueles que o aguardam no Conselho dos Sábios, o Quinto Reino.
A sua próxima tarefa não será nada fácil, e muito exigirá da sua força e, sobretudo, sabedoria, pois um inimigo antigo retornará mais forte e decidido a mata-lo.

(continua na parte 3)