segunda-feira, 26 de maio de 2014

Os Trabalhos de Hércules e a Evolução da Consciencia ( Parte 1)

O crescimento do ser humano observando
Os 12 trabalhos de Hércules




Texto de Yeda Maria Bastos e Marcio Isael Larsen
  






INTRODUÇÃO:
MITO OU REALIDADE?
“O Mito é o pensamento não revelado da Alma”
H.P.Blavatsky    
         
         A Mitologia é uma forma (a mais antiga de todas) de interpretar fatos e eventos físicos e não físicos, de ordem extraordinária ocorridos no passado ou mesmo no presente através de símbolos. Também podem representar processos existentes em outros níveis da realidade, não tendo necessariamente fundamentos na histórica, no tempo. Os sábios de outrora, vendo que a humanidade ainda não dispunha de uma linguagem apropriada e que carecia de entendimento adequado para compreender a natureza das coisas, ensinavam por meio de contos e parábolas, usavam as referencias que estavam ao alcance dos sentidos e criavam fantasias para que as verdades fossem transmitidas. Cabia a poucos interpreta-las, porém, as interpretações também variavam na proporção das diferentes formas de entendimento.
          Para o buscador do saber que aspira seguir além da letra e do símbolo, a Mitologia é mais do que a narrativa de lendas, mas antes, uma forma de ensinamento muito rica capaz de nos revelar verdades que sequer imaginamos. Dizem que por trás de toda lenda há uma experiência real, e que toda lenda encerra uma verdade.
         Jesus ensinou através de parábolas, e muitos foram os pensadores, místicos e filósofos que as interpretaram de formas distintas e também complementares, sempre apontando para a riqueza nelas contida e o poder de elucidar mistérios.
         A Psicologia, por exemplo, tem seus fundamentos apoiados na Mitologia, especialmente a Grega (a mesma que deu origem ao nosso personagem Hercules). Os pioneiros mais atentos viam na mitologia uma descrição sem paralelos da complexidade humana e dos diversos elementos formativos da psique humana. Freud e, sobretudo Jung, foram além do aparente, e cada um do seu modo deu a Mitologia o respeito e a seriedade merecidas.
        O que fica claro quando destrinchamos mais e mais detalhes desses sistemas mitológicos é que os seus criadores foram grandes iniciados, seres geniais, no entanto, é crível que tenhamos tido períodos de grande avanço nos domínios da consciência em termos coletivos. Como consta nas diversas tradições, existem idades que se diferenciam pelo estado de consciência vivido por boa parte da humanidade. Assim algumas tradições falam de Quatro Idades, que são:

  - IDADE DE OURO
  - IDADE DE PRATA
  - IDADE DE BRONZE
  - IDADE DE FERRO
        
 É possível que os Gregos da Idade de Ouro tenham sido os criadores de tão fabulosa mitologia, que com o tempo foi sendo acrescentada e atualizada, chegando até nossos dias para nos estimular a romper com as formulas objetivas e lineares de abordagem e interpretação da vida. Há quem diga que essas Mitologias foram criadas no passado para que hoje possamos desvela-las através do nosso próprio avanço consciencial. Foram concebidas muito mais para as gerações futuras do que para os povos de então.
          Nosso personagem Mitológico, Hércules, também foi interpretado à Luz dos ensinamentos revelados pela Teósofa Alice Ann Bailey, que sob a orientação do seu Instrutor (Mestre Tibetano, ou D.K), consagrou e devotou sua vida ao propósito de levar conhecimento e esclarecimento propiciando que um grande aporte de Sabedoria chegasse até nós. Do ponto de vista Teosófico não é exagero qualificar o conjunto da obra de A.Bailey como o mais vasto, profundo e inovador,ombreando em importância com a obra de Helena Blavatsky.
         Alice Bailey interpretou esse fabuloso mito tendo em vista o processo de tomada de consciência inerente ao homem que pôs os pés no caminho da autodescoberta. Sua descrição do mito difere, em certos aspectos, do conto original, porém, não há nenhuma adulteração em relação a natureza dos trabalhos e aos personagens, salvo que a ordem dos trabalhos não é igual ao do mito original, mas antes, na ordem das constelações astrológicas e do itinerário evolutivo da consciência humana.
          Em nosso estudo vamos nos deter na dimensão mais psicológica do mito, na imensa possibilidade de autodescoberta e de autoconhecimento que ele revela. Por ser um mito muito rico em associações e possibilidades de interpretação, é necessário que tenhamos cuidado para não tornar nosso estudo longo demais e proibitivo mediante nossa proposta de procurar aprender de forma acessível, porém, com abertura para aprofundamentos por parte de cada um em estudos posteriores.
           No livro “Os Trabalhos de Hércules” de Alice Bailey diversos significados implícitos no mito são abordados, especialmente as correlações com a Astrologia e com os Sete Raios, no entanto, julgamos em nosso entendimento que essas correlações já foram suficientemente abordadas na obra referida, além do que é um estudo que requer mais tempo e pode não ser tão eficaz no sentido de alcançar um maior numero de pessoas do ponto de vista mais prático.           
           Para encerrar essa introdução, é para Alice Bailey e seu amado “Professor” a quem dedicamos esse trabalho, essa singela contribuição resultado de anos de aprendizagem pelos muitos caminhos do ÚNICO CAMINHO.




 Mestre D.K (O Tibetano)






 Alice Ann Bailey



 HÉRCULES EM CADA UM DE NÓS
     
         Hércules (ou Heracles) foi um herói da mitologia grega que abriu os caminhos para a evolução vencendo as mais severas provações e “monstros” (que trazemos dentro de nós) ao longo de Doze Tarefas que todos nós precisamos compreender e cumprir, cada um ao seu modo. Hercules é o herói que cumpre suas tarefas sob a orientação de um Instrutor (que pode estar representando o nosso próprio Eu Divino), porém, foi ele mesmo quem assumiu se submeter às provas, não por imposição, mas por disposição de se tornar um SER melhor. Por ser um mito complexo permite variações, tanto da interpretação como de tradução de alguns elementos, desde que não se extravie dos e
 Os “monstros” e as adversidades que Hercules enfrenta são as dificuldades, os hábitos e os vícios que adquirimos no decorrer de nossas vidas inconscientes e inconsistentes, e que precisamos superar para que deixem de nos atrapalhar, de nos confundir impedindo o progresso na nossa caminhada em busca da perfeição, perfeição que nada tem a ver com a ausência de erros ou com algum modelo idealizado de inteligência e beleza, mas antes, com a capacidade de agir em todos os domínios da existência à luz do ritmo e verdade interiores, da pura consciência da Alma. E isso pode variar de pessoa para pessoa, ainda que todas ajam com coerência e concordância para o Bem Maior.
 Certa vez, a fundadora da Teosofia moderna, Helena Petrovna Blavatsky disse que “Um dia a terra será habitada somente por Cristos e Budas. Quando pudermos revelar a perfeição do Deus que vive em nós a Terra se tornará um Planeta Sagrado em virtude da energia pacífica e amorosa irradiada pelos seus habitantes assim Divinizados. E nesse dia poderemos dizer, então, que o tão almejado Reino do Céu também é aqui. No entanto, sem o verdadeiro propósito de nos autoconhecer isso jamais será possível! E eis que os sábios nos legaram o mito de Hercules para nos guiar nessa jornada.
          O estudo dos 12 trabalhos propostos a Hércules pelo seu Instrutor (que reportava os feitos a um conselho de sábios) permite que observemos em nós as dificuldades que ele teve que enfrentar, ou seja, nossas próprias dificuldades. A proposta é fazer com que cada um encontre seu modo próprio e pessoal de compreender e agir para vencer suas dificuldades reconhecidas nos desafios que Hércules teve que superar. Quando isso acontecer, quando superarmos nosso ego infantil pelo reconhecimento do Mestre que habita em nós, deixaremos para sempre de culpar os outros ou o “demônio” pelas nossas faltas e erros. Não criaremos mais “bodes expiatórios”. Seremos verdadeiramente mais corajosos, justos e maduros.
         Hercules aceitou passar pelas provas, sabedor de que além dele ser “filho do homem” era, acima de tudo, ”Filho de Deus”, e para que esse estado fosse atingido conscientemente, seria necessário reparar e aperfeiçoar a sua própria humanidade.
Desejamos que esse estudo seja produtivo e muito proveitoso para todos nós. Nosso objetivo único é jogar luz sobre tudo que possa trazer esclarecimento, valor e beleza a nossa experiência na Terra.
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 SOBRE EURISTEU E HERCULES
“Onde houver um discípulo dedicado também está seu Mestre, em cada palavra, em cada gesto. Cada discípulo tem o Mestre que alcançou por merecimento”




       Euristeu é o Mestre de Hercules, e tanto representa o Mestre Interno (a própria Alma) como também um Instrutor do Quinto Reino, o Reino da Pura Consciência para o qual Hercules se encaminha. Enquanto instrutor do Quinto Reino, Euristeu é um Mestre que opera como mediador entre Deus e a Humanidade.
         O velho axioma “quando o discípulo está pronto o mestre aparece” vem sendo mal interpretado ao longo do tempo, pois muitos entenderam de que se trata de um mestre/ guru físico, enquanto na verdade é muito mais o Eu Superior/ Alma orientando a personalidade para que essa o veja e veja a Deus através das suas infinitas manifestações.
         Quando o Mestre Interno/ Alma entra em atividade ele revela ao eu personal as Leis e a Sabedoria Divina das quais ele extrai o seu agir, propiciando que o seu prolongamento recolha informações de dentro para fora. Isso possibilita uma resignificação existencial profunda, pois tudo o que foi vivido outrora sem a atividade da Alma é revivido sob a sua Luz. Essa nova ação resulta na remissão e sacralização de todas as formas de expressão e atributos, incluindo o sexo e o dinheiro.
         A relação com um Mestre do Quinto Reino ocorre somente no plano da consciência e muito raramente alcança a mente consciente. O fato de estarmos sujeitos às limitações do próprio ego com seus fascínios e crenças mais as adversidades inerentes aos ambientes físico e psíquico, justificam a subjetividade da relação Mestre-Discípulo. Os ganhos dessa intra-relação são fundamentados no caráter, quer dizer, como riqueza de caráter e nem tanto como ganhos objetivos, tangíveis. 
         Mesmo no caso de um Discípulo avançado é muito mais vantagem trabalhar com a consciência interna do mesmo do que através do ego consciente que, apesar de estar mais atento e desperto em relação ao ego do homem comum e mesmo de um homem já aspirante, ainda sim, precisa de refinamento e amadurecimento em níveis mais elevados para saber lidar com os novos potenciais, horizontes e faculdades que se abrirão. São muitos os estágios e níveis de consciência a serem galgados no caminho da iluminação (iniciação). É citação corrente com pequenas variações de acordo com a tradição, que “Tolo é aquele que pensa saber que sabe só porque subiu a montanha. Pois ao olhar para cima verá que o seu cume é apenas o sopé de outra montanha, e assim sucessivamente”. Um Grande Instrutor do Quinto Reino assim traduziu a ascese do espírito: “Quando olho para baixo e vejo o quanto subi reconheço o tamanho da obra e o meu Dever para com aqueles que estão na subida, posto que um dia LÁ estive e um dia aqui eles estarão. Porém, ao olhar para cima me recolho ao papel de eterno aprendiz e me seguro nas mãos daqueles que me estão acima, na eterna cadeia da incomensurabilidade”.
          Só podemos estabelecer uma relação com um Mestre do Quinto Reino quando descobrirmos nosso próprio Mestre, que é a Alma. E essa descoberta implica em perder o que identificamos e defendemos como eu e seus hábitos, crenças e inclinações.  Não é um evento programado e desejado, não pode ser buscado pelo ego, não pode ser obtido com técnicas (muitos esperneiam com essa colocação, pois dentro dos seus respectivos métodos/ modelos/ técnicas tudo é possível), face isso ser uma forma de auto-engano e ilusão. Essa revelação só ocorre quando esse próprio ego se mostra incapaz de lidar com a realidade e a verdade percebida por uma consciência que não depende do externo para SER e que orienta os sentidos e a psique para recolher vida e informação de outras procedências.
           Em suma, é no esgotamento do ego e na evidencia de sua fragilidade e finitude que o Eu aparece como uma brisa que nos acalma e nos inspira, que nos alimenta sem nada tangível, sem estímulos exagerados, nem mesmo explicáveis e lógicos. Uma nova forma de perceber e compreender a vida vai tomando conta e redimensionando tudo o que fora construído e vivido no modo anterior. Não produz deslumbramento, não nos faz aparecer e nem parecer mais do que os outros, ao contrário, nos convida para a quietude e para a discrição, para um tipo de invisibilidade que nos expõem para uma realidade muito mais ampla dentro da qual nos entregamos em serviço com nossas competências e habilidades seja no que for. A ninguém pretende convencer e vencer, nada quer posto ser querido pela vontade maior, não interfere na vida e aceita o fluxo e ritmo interno. Ainda sim, a natureza se dobra por onde ele passa e o auxilia sem que perceba...
           O processo iniciático é gradativo, porém intenso, o que implica numa sucessão de transformações em pouco espaço de tempo e com uma potencia que o homem comum não conseguiria suportar. Com efeito, ocorrem processos catárticos que podem assustar o Discípulo, posto que a dispensação de energias internas remove e expele tudo o que não responde ou serve a atividade da Alma nos mundos físico, emocional e intelectual. Por isso os ensinamentos interpretam certas doenças como “Iniciáticas” por serem em essência, eliminações decorrentes de ajustes internos/ transubstanciação. O veículo(personalidade) precisa ser reformado e ajustado para receber uma outra e superior qualidade de energia e atividade. 
         Resumindo: Mestre é a Consciência desperta que nos faz ver Deus imanente e transparente em tudo, e acima de tudo, indica o caminho que nos conduz para além da ilusão. Somente na investidura do Mestre podemos ler o livro da Vida, ou como diz o grande pensador Edgar Morin “A Vida da vida”.
     





1º TRABALHO
A CAPTURA DAS ÉGUAS ANTROPÓFAGAS

“Hércules, meu filho, vai. Atravessa o Primeiro Portal e inicia o Caminho. Executa teu trabalho e retorna a mim relatando o feito”.
Sob a ordem de Euristeu, o sábio instrutor de Hércules, o mais forte dentre os homens saiu para localizar, capturar e encaminhar para uma “re-educação” imensas éguas criadas pelo belicoso Diomedes (filho de Marte), que pariam ininterruptamente cavalos antropófagos que destruíam a humanidade impedindo seu progresso, causando dor e destruição por onde passavam.
Hércules era conhecido pelas suas proezas desde tenra idade, mas agora ele assumia estar sob a orientação de um Mestre pertencente a um conselho de Sábios. Ele sabia e reconhecia que havia um propósito maior para o uso das suas habilidades, coragem e força. Ele era admirado e invejado, respeitado e temido. Agora ele precisava respeitar uma força muito maior e ver além de si mesmo. 
Muito confiante e cheio de entusiasmo, Hércules se pôs no caminho em companhia de um velho amigo chamado Abderis, e juntos saíram em busca das temíveis e insaciáveis éguas.
          Ao encontrá-las Hércules conseguiu capturá-las sem muito esforço, porém, era preciso conduzi-las cuidadosamente para a transformação. Elas não poderiam continuar criando caos e destruição.
          As éguas precisavam aprender a gerar potros bonitos e construtivos em vez dos filhos autodestruidores que mantinham o estado doloroso por onde cavalgavam.
          Impulsivo e ansioso, uma característica de todos nós que ainda não despertamos, Hércules entregou as éguas aos cuidados de Abderis para que esse as conduzisse através do portal que levava à transformação. E crente que a tarefa se deu por concluída, Hércules foi procurar Euristeu, seu Mestre, em busca de instrução para a próxima tarefa. Ele estava afoito por terminar tudo, e assim o fez tendo capturado com relativa facilidade as criações que o próprio Diomedes havia perdido o controle.
 E na sua ansiedade, na sua pressa ele não concluiu o que precisava ser feito e nem anteviu os riscos que isso guardava. Delegou para Abderis a tarefa de finalizar o que até então tinha iniciado e conduzido tão bem e que era de sua inteira responsabilidade. Será que Abderis conseguiria concluir o que ele não escolheu e nem iniciou?
          Separado de Hércules, que tinha se afastado em busca do Segundo Portal, Abderis ficou apreensivo e sentiu Medo. E o medo paralisa, restringe, contrai e emburrece. Sua mente (a égua) desandou a “parir” cavalinhos autodestrutivos (pensamentos negativos), e ele começou a se achar incapaz de cumprir o restante da tarefa, ficou assustado, desconfiado, inseguro. Não mais acreditava em si mesmo. Perdeu as forças e tal como “pensou” e “acreditou”, as éguas rebeladas pariram tantos filhotes destruidores que Abderis sucumbiu.
 Hércules foi orientado pelo Instrutor a voltar e recapturar as éguas, porém, sua dor era enorme. O amigo havia morrido, como resultado de sua irresponsabilidade e negligencia. No caso, fruto da pressa em obter resultados, o que não lhe deixou perceber com clareza a dimensão de uma situação tão importante e que lhe cabia cuidar. Ele foi individualista, outro comportamento primário e que gera pensamentos disfuncionais.
O mais forte dentre os homens conclui, com pesar, sua primeira tarefa. Ele se encaminhou para o próximo portal mais reflexivo e atento. Percebeu a complexidade e os desdobramentos por trás do que aparentemente é simples e fácil.




Hércules fica chocado ao encontrar Abderis morto pelas éguas


AJUDANDO O HOMEM A CRESCER

 A primeira tarefa que todos temos que realizar em busca do auto-crescimento é observar a função da mente.
 De acordo com os ensinamentos contidos nos livros de Alice Bailey, existe uma “máxima” que pode nos ajudar a compreender a importância da mente e dos pensamentos: “A ação segue a energia e a energia segue o pensamento”. Vamos trabalhar nisso. Naquilo que pensamos de nós mesmos, dos outros, da situação em que nos encontramos hoje, do nosso passado, do amanhã. Quantas éguas descontroladas nos arrastam de um lado para o outro, sem controle?
Vamos verificar se somos pessimistas, otimistas, confiantes, amedrontados. Apoiados em que nos sentimos assim? Quais os conteúdos por trás das nossas motivações e escolhas? Quantos pensamentos impulsivos, movidos por desejos egoístas e pelo imediatismo de resultados não são paridos de forma incontinente pela mente?
Vamos a partir de agora observar com muito cuidado nossa mente e os pensamentos, a égua e os cavalinhos destruidores que ela não para de gerar. E tentar descobrir porque isso acontece.
De acordo com a milenar sabedoria oriental é ensinado que “se você deseja saber quem é basta observar onde está o seu pensamento, pois ali está a sua realidade”. O Sábio Hermes Trismegisto assim escreveu: “O todo é mental, tudo é mente”. Buda disse: “Vigiemos nossos pensamentos, pois deles provem a ação, e segundo semearmos assim colheremos”.
Vamos procurar cada um a seu modo, tirar proveito dessas informações e cuidar de nós mesmos como até hoje ainda não tentamos fazer. E nos responsabilizarmos pelo que nos cabe fazer.
         Não se trata de “pensar positivo” em lugar de pensar negativo, pois a questão está muito além dessa forma provisória e enganosa de lidar com a verdade. Pensar positivo pode ser uma forma de escapar para não vermos o que precisa ser compreendido e reparado, ainda sim é mais desejável do que pensar “negativo”. O que precisamos aprender a desenvolver em nossa auto-cultura interior é a arte do “Pensar Bem”, uma forma de contemplar as situações sem antecipar conclusões, sem reagir aos eventos externos mediante o que eles aparentam ser.
         O Pensar Bem nos faz responder ao invés de reagir às situações, é vertical no sentido de nos posicionar acima das causas e efeitos aparentes e imediatos. Ele consegue acatar as reatividades antes que essas engendrem ações potencialmente destrutivas. Precisamos ter em conta que os potros destruidores nascem da mente periférica, que é burra para lidar com questões que exigem outra forma de inteligência, oriunda de uma mente mais interna e servil a Alma.
          Pensar Bem significa agir com lucidez, clareza e capacidade de lidar com os movimentos cegos e compulsórios da “égua indômita”, a mente periférica, mas para tanto, é preciso estimular essa faculdade, querer e mover esforços para tanto. É um aprendizado que requer energia, atenção e vontade. Também requer entrega à Alma, pois ela “pensa” de acordo com a sabedoria que lhe é inerente. Também podemos pedir por esse dom, uma vez que o próprio Jesus assim disse “Pedi e vos serás dado”. Sim, esse tipo de pedido é atendido, pois Ele se referia aos tesouros da Alma, aos bens internos.
          Em verdade a Alma não pensa: INTUI, e isso significa interagir com a natureza essencial dos fatos sem interferência de conceitos e pré-conceitos, sem as bagagens acumuladas a partir do exterior. Estamos tão entupidos de informação de má qualidade, de conceitos importados e quase sempre tendenciosos que automaticamente rotulamos as situações sem refletir, sem ponderar sobre aspectos mais sutis e não aparentes. Nossa mente é igual às máquinas seladoras: vive adesivando rótulos...enganosos!
         Quando nos permitirmos conhecer o pensamento, suas causas e sentimentos embutidos, sem interferir positiva ou negativamente (isso é ruim, isso é bom) já teremos caminhado bastante na senda do autoconhecimento. Quem dentre nós já consagrou alguns minutos para observar onde está seus pensamentos e o quanto está alienado e distanciado do agora em sua beleza e possibilidades e distanciado de si mesmo? 
Vamos realizar essa tarefa de observar e cuidar da mente com muito respeito e atenção, sem pressa, pacientemente reconhecendo as partes destrutivas, reconstruindo, tomando nas nossas próprias mãos a realização da tarefa sem delegar a outros ou culpá-los pela dificuldade ou insucesso.
Aqui também cabe espaço citar outra falha nesse início de jornada do nosso herói: o individualismo. Caso ele não corrija essa disfunção é certo que ele não consiga se sustentar no caminho, pois isso é completamente antagônico ao propósito maior da sua jornada: tornar-se um servidor do mundo.
Por ora, mais atentos e despertos poderemos então, penetrar no próximo desafio de Hércules e trazê-lo para nós também.




2º TRABALHO
A CAPTURA DO TOURO

        Euristeu, o Instrutor, encaminhou Hércules para a sua próxima tarefa: montar o Minotauro, o Touro que perdido no labirinto do Rei Minos na ilha de Creta corria de um lado para o outro sem encontrar saída. Hércules tinha que conduzir o poderoso animal até o continente para que ficasse sob os cuidados de três seres sagrados dotados de um único olho. Esse Touro tinha muita força e poder, porém, estava descontrolado, sem orientação.
O Touro deveria ser encaminhado aos cuidados dos três seres (que simbolizam os três aspectos do nosso Eu Interior: Vontade, Amor/Sabedoria e Inteligência Criadora), pois a luz (vida) brilhava na fronte do touro, similar a um olho espiritual, e conforme ele corria na escuridão do labirinto, a luz indicava a sua presença. Mas essa luz ainda estava sem direção, ora iluminava um aspecto, ora outro, e o olho (único) situado no meio da testa do indômito touro ainda estava cego.
Hércules precisava conhecer o touro para domina-lo com sabedoria. Ele não podia agir como no trabalho anterior, não poderia ser impulsivo, posto que o novo desafio envolvia uma criatura almejada pelos sábios, sendo portanto, muito poderosa.
O Touro enquanto símbolo representa também nossas energias mais primárias e instintivas. E como os ensinamentos contemplam os instintos? Devem ser suprimidos em prol de formas mais elevadas de consciência? É negativo?
Claro que o instinto é fundamental, é a inteligência do corpo físico e uma espécie de intuição primal, pois confere poder de adaptação e indica com quase precisão absoluta os meios mais adequados para preservação e sobrevivência da espécie. É muito confiável uma vez que não sofra algum tipo de adulteração. Não é muito diferente da Intuição que é o “Instinto da Alma”.
  O instinto só se torna “perigoso” quando sofre interferência da mente concreta e do desejo, o que só ocorre no reino humano. Ao receber a autonomia pensante do homem o instinto pode se tornar extremamente perigoso, posto estar “armado” com uma inteligência adicional poderosa, porém, egoística e maliciosa quando não está sob a ação diretiva da Alma. 
          O Touro também representa a pulsão sexual que se não for utilizada à luz da consciência, serve apenas para procriar e satisfazer impulsos/desejos breves e fugazes, que podem, entretanto, gerar consequências graves e irreparáveis. Meditemos: o mesmo poder que gera galáxias, estrelas e átomos, que faz as plantas florescerem e os pássaros cantarem é desperdiçado pela humanidade por ainda não saber vivencia-la amorosa e criadoramente. É provável que se já a tivéssemos sob a égide de uma consciência mais desperta, estaríamos milhares de anos à frente do estágio em que nos encontramos.
      Hércules era um Discípulo, palavra que tem o mesmo radical de disciplina, portanto, deveria ele medir e orientar sua energia e ação para utiliza-las “criadora-mente”, sem desperdício e com sentido de proporção. Ele precisava domar e elevar o touro existente no seu interior. A energia procriadora, a sua pulsão primária deveria ser elevada ao coração e dali servir de base para se tornar co-criadora. Esse é o propósito do ser humano, e somente isso explica a estatura consciencial e a genialidade de seres como Buda, Cristo, São Francisco de Assis, Leonardo Da Vinci, Mozart, Gandhi, Bach, Beethoven, Michelangelo dentre tantos que nos mostraram que é possível fazer diferente. Esses gênios moveram a mesma energia sexual que todos nós temos para “cima” e por isso não foram apenas criativos, mas antes, criadores. Contribuíram para a elevação de toda humanidade.
 O Touro estava numa ilha, portanto, havia muita água entre Hércules e o seu destino, o que nos remete ao milagre do caminhar sobre as águas atribuído a Jesus, em essência, uma representação do domínio e transcendência das emoções e dos desejos. Mas qual é o problema das emoções?
        Normalmente as emoções e os desejos nos deixam perdidos, regidos pelas forças de atração e repulsão que nos levam a ir de um lado para outro, ora “adorando”, ora “detestando” coisas, pessoas e situações onde na verdade, não faz a menor diferença o que estamos sentindo. E sofremos sempre, porque quando permitimos que esses modos nos governem, deixamos muitas vezes de ter uma vida equilibrada, viver momentos de paz e de alegria, de usufruir oportunidades que a vida nos está sempre oferecendo. 
A poder de atração e repulsão transforma-se numa força descontrolada, que atuando através de nós pode causar danos irreparáveis. Ela obtura nossa percepção, e assim ficamos insanos e superficiais em nossas motivações, avaliações e escolhas. As externalidades que essas reações podem gerar são incontáveis.
 Eis o que acontece quando somos movidos por esses dois modos: Ao funcionarmos regidos pela energia da repulsão somos incoerentes, cruéis, preconceituosos, injustos. Aliás, é bom alertar que muitas vezes o que repelimos no outro está dentro de nós mesmos, mas preferimos devolver como uma forma de reação e proteção.
No modo da atração ficamos fascinados e nada mais enxergamos além do objeto da atração, que obviamente nos proporciona algum tipo de satisfação, algum prazer ou compensação. Queremos possuí-lo de qualquer forma. Não raro deitamos a perder anos de labuta e confiança adquirida em troca de momentos fugazes e inconsistentes de prazer, que em seguida geram sofrimento, pois o que é passageiro e sem vida exige repetição, e repetição é inércia, ou conforme ensinam os Budistas, é “SAMSARA”, movimento/ agitação compulsório e semi-consciente.
         Quando somos arrastados pela repulsão nos afastamos da verdade inconscientemente e inadvertidamente, vendo e falando de coisas que “supomos” sem ter certeza. Mas, já bem sabemos que somos responsáveis por tudo que dizemos o que requer muita atenção de nossa parte. Como disse Fernando Pessoa “Tomemos cuidado, pois a vida espreita-nos, sempre”.
É quase certo que muitos de nós em algum momento tenhamos nos deixado enredar pela energia de atração, e assim ficamos expostos, perdemos a noção do limite, valorizamos e endeusamos pessoas que não eram aquilo que “imaginávamos” (a imaginação pode salvar como também destruir). De repente quando percebemos, a energia que nos fazia sentir atração pela situação se transformara em repulsão, mágoa, dor, revolta e ódio nos tornando mais uma vez injustos e afastados da simples realidade.
Além de capturar o touro, Hércules precisava dominá-lo, montá-lo e levá-lo sobre as águas turbulentas do oceano (as confusas emoções) até chegar ao continente dos três seres de um olho só (Cyclopes), aqueles que não mais se entregam à dualidade da emoção e da inteligência dualista/linear e que podem olhar do alto desfrutando da visão equilibrada e sapiente do caminho do meio.
         Se Hércules submetesse o touro com toda aquela força a uma travessia pelas águas, o que poderia acontecer? O pior, sem dúvidas. Então Hercules montou sobre o portentoso animal e o elevou ao ar, conduzindo-o com segurança até o continente. Os três seres ao verem Hércules voando sobre o oceano montado no Touro, disseram: “Ele vem com fortaleza, Ele cavalga na luz, Ele vem com velocidade”. Ou seja, viram que o destemido, porém mais consciente Discípulo havia elevado o Touro acima das emoções e da dualidade.
          Nosso Herói cumpriu de forma admirável seu segundo trabalho, e assim, partiu rumo ao Terceiro Portal.


Domar o Touro é dominar e re-orientar os próprios impulsos



AJUDANDO O HOMEM A CRESCER
         
         A visão interior pode ser comparada ao símbolo do triangulo: a base é horizontal, dual, igual aos nossos olhos, mas o vértice é uno, permiti uma visão panorâmica, do todo, onilateral (a nossa perspectiva é unilateral). As laterais do triangulo divergem e convergem para o vértice, ou seja, da unidade viemos e para ela retornaremos. Mas para isso, precisamos agir nem tanto para um lado ou para o outro, mas descobrindo uma nova forma de se posicionar menos impulsiva, menos inconsequente e mais harmônica e ponderada. Devemos observar e transformar nossas tendenciosidades, muito perigosas e que muitas injustiças perpetram.
                                                        


      Dotados da visão vertical e da ação do meio, situados acima do “bem” e do “mal” nos tornamos mais tranquilos e serenos, deixamos de nos importar com o que não nos cabe mudar e procuramos empenhar nossas energias e competências para fazer o melhor em tudo e engendrar o potencial da mudança quando assim for adequado e permitido. Desenvolvemos mais Discernimento diante das nossas escolhas. Cuidamos mais das palavras, das suposições e ficamos menos intempestivos. Beneficiamos a nós e aos outros.
     Cabe aqui destacar que o Discernimento é a mais importante das faculdades internas para o aprendiz. Sem esse “sentido” da Alma não há como ver e viver a verdade inerente a tudo. Por ser uma faculdade da Mente Superior/ Causal o Discernimento separa o real do irreal, sempre apontando para as formas mais adequadas e inteligentes de aplicar a energia. Com Discernimento não há desperdício decorrente de julgamento/ percepção equivocados, o que é empregado e posto em atividade tem uma direção e propósito coerentes com o ritmo da Alma.
   O Discernimento não surge da atração/repulsão, nem dos juízos da mente concreta( cujo estofo é a memória,o conhecido), mas antes, é um princípio da Mente Superior, também conhecida como Causal por perceber a realidade do todo para a parte, enquanto que a mente concreta vê da parte para o todo. Permitir que o Discernimento se manifeste requer muita atenção e concentração, e segundo consta nos ensinamentos, um dos caminhos mais eficientes para desperta-lo é a meditação focalizada na Presença da Alma. O que isso significa? Que devemos estar cônscios da realidade da Vida Interna, da Presença Divina em nós como verdade absoluta, e então, concentrar nossa atenção no Ponto de luz do Amor de Deus no coração. Esse Ponto de Luz se une a outro ponto situado na fronte(Presença da Inteligencia Espiritual), e ambos assim interligados iluminam  o cérebro e o sistema nervoso.  
    Hércules terá momentos de Discernimento até que isso faça parte integral do seu ser e agir. E é assim: experimentamos várias vezes e em diferentes níveis de profundidade e constância,até que o "alimento" seja integrado e assim faça parte do nosso agir.
   No ser humano desperto, o Discernimento é uma extensão do sentido do OLFATO do corpo animal. Observem um animal: Jamais ingere um alimento sem antes cheirá-lo até se certificar que é bom, que não está deteriorado e assim não lhe fará mal.       
     Em nossa imaturidade e imediatismo, muitas vezes deixamos nos envenenar pelo que ouvimos, pelo o que vemos (ver depende da qualidade do observador, é relativo e pode ser tão enganoso quanto não ver) e pelo o que apenas “supomos”. E passamos a nos sentir atraídos, ou então, repelimos violentamente o que pouco ou nada conhecemos. E lá se vai nossa vida perdida com tantas tolices, deixando de perceber a importância de estar aqui e agora com tantas oportunidades de crescer.
     Hércules foi bem sucedido nesse trabalho, pois veio da tarefa anterior mais reflexivo. Compreendeu o que o Touro representava e o soube conduzir a um estado não mais governado por tanta turbulência, entregando a condução da personalidade à mente desperta. Essa foi a sua primeira experiência na investidura de uma forma superior de consciência.
    O olho do touro se iluminou e a luz do caminho do meio o libertou da inconstância da dualidade. Hércules, porém, ainda terá muito que aprender no decorrer do Caminho da auto realização, ainda terá um longo caminho pela frente cheio de alternâncias entre clareza e obscuridade no qual a prática real e integrada das lições iniciais virá com o serviço.
     E nós? Será que compreendemos bem o papel da emoção irracional que nos leva a agir sem autodomínio, e a reagir a qualquer estímulo externo? Será que já nos pegamos perdidos e aturdidos nos labirintos da mente e dos impulsos, sem saber para onde orientar nossas energias?
   Quando conseguimos entender a importância da mente liberada dos pensamentos nocivos e sustentamos o propósito de Hércules conduzindo-a sempre para a luz, sem sermos arremessados de um lado para outro, ficamos SERENOS. Pois a serenidade é o 1º passo para darmos continuidade a esta tarefa que nos levará a crescer enquanto habitando a Terra como filhos de Deus.
      Vamos nos observar, vamos perceber respeitosamente em nós, nos outros, as ações, e verificar quem as está regendo. Será a emoção indomada ou a mente preconceituosa?
     Bom mesmo será quando a luz de Deus começar a brilhar em nós e agirmos com SERENIDADE.






(continua na segunda parte)




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